E depois de muito pensar e de muito sofrer, ela começou a se despedir.
Lavou a louça e as roupas pela última vez. Arrumou o quarto e cheirou cada uma das roupas, olhando para as mesmas com saudade.
Arrumou-se para ele pela última vez e esperou que chegasse.
Estava doendo, pois sabia que seu dia tinha sido agradável e a conversa que teriam, nem tanto.
Por isso, sugeriu que fossem pela última vez ao fast-food e se divertissem comendo porcaria e conversando porcarias.
Então veio a conversa. Apesar de todas as boas coisas que foram ditas, ainda parecia o certo a ser feito. E foi feito.
E ele a seguia pelo apartamento, perdido.
E ela sugeriu que vissem o último filme. E por que, meu Deus, aquele filme? Por quê? Se lembrou da conversa sobre amor quando assistiram O Poderoso Chefão.
Pediu para que se deitasse em seu colo, fez festinha em seu cabelo.
No quarto, sugeriu o dia seguinte e tentou se conter e fazer parecer natural em meio ao desespero dele.
Dormiram e ela se sentiu pequena em seu abraço. Acordou algumas vezes para vê-lo dormir.
Pela manhã, conversaram mais um pouco e se arrumaram para o almoço.
Ela pediu para que trocasse de calça e perguntou se poderiam ir de carro.
“É por causa do salto?”
Após um breve silêncio, ela respondeu que sim e se lembrou da primeira vez que entrou em seu carro, na porta do prédio.
“O que acontece com aquele prédio? Por que todo mundo mora lá?”
Almoçaram como bons amigos e andaram de mãos dadas.
Conforme a hora de partir se aproximava, as perguntas sem resposta se alternavam às lágrimas, ora dele, ora dela.
O silêncio no caminho, como escolher a última música?
O último atraso, as mãos dela na perna dele, pedindo pra que ficasse calmo.
“Não, eu não sei se estou fazendo a coisa certa”.
“Por favor, fale alguma coisa, ainda que não seja o que está pensando”. Era o medo de esquecer sua voz.
E na pressa, de novo, não souberam se despedir e durante toda a viagem ela pensou naquele depoimento escondido:
“E não é que a gente não sabe se despedir... Acho que é uma questão de incapacidade mesmo, de simplesmente não conseguir dizer adeus.
“E não é que a gente não sabe se despedir... Acho que é uma questão de incapacidade mesmo, de simplesmente não conseguir dizer adeus.
E outra: não quero ter que me despedir... Nunca...
No máximo dizer boa noite, sabendo que você vai estar ali, pertinho, quando acordar...”
Agora ela diz boa noite para uma foto, e até acaricia seu rosto.
Não tem mais aquele quarto, naquele apartamento, no prédio onde todos moram, pra ela poder se jogar na cama sentindo o cheiro dele e lembrar de cada vez em que lá ficaram por dias. E permanecer lá, por dias. Até essa dor passar.
Ainda não veio também a coragem de reler as cartas. Não há mais o que fazer a não ser pensar em tudo (de certo e de errado) e engolir o que queria dizer.
E pedir para que fique bem.
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