terça-feira, 6 de julho de 2010

hearts and thoughts they fade, fade away

E depois de muito pensar e de muito sofrer, ela começou a se despedir.



Lavou a louça e as roupas pela última vez. Arrumou o quarto e cheirou cada uma das roupas, olhando para as mesmas com saudade.



Arrumou-se para ele pela última vez e esperou que chegasse.



Estava doendo, pois sabia que seu dia tinha sido agradável e a conversa que teriam, nem tanto.



Por isso, sugeriu que fossem pela última vez ao fast-food e se divertissem comendo porcaria e conversando porcarias.



Então veio a conversa. Apesar de todas as boas coisas que foram ditas, ainda parecia o certo a ser feito. E foi feito.



E ele a seguia pelo apartamento, perdido.



E ela sugeriu que vissem o último filme. E por que, meu Deus, aquele filme? Por quê? Se lembrou da conversa sobre amor quando assistiram O Poderoso Chefão.



Pediu para que se deitasse em seu colo, fez festinha em seu cabelo.



No quarto, sugeriu o dia seguinte e tentou se conter e fazer parecer natural em meio ao desespero dele.



Dormiram e ela se sentiu pequena em seu abraço. Acordou algumas vezes para vê-lo dormir.



Pela manhã, conversaram mais um pouco e se arrumaram para o almoço.



Ela pediu para que trocasse de calça e perguntou se poderiam ir de carro.



“É por causa do salto?”



Após um breve silêncio, ela respondeu que sim e se lembrou da primeira vez que entrou em seu carro, na porta do prédio.



“O que acontece com aquele prédio? Por que todo mundo mora lá?”



Almoçaram como bons amigos e andaram de mãos dadas.



Conforme a hora de partir se aproximava, as perguntas sem resposta se alternavam às lágrimas, ora dele, ora dela.



O silêncio no caminho, como escolher a última música?



O último atraso, as mãos dela na perna dele, pedindo pra que ficasse calmo.



“Não, eu não sei se estou fazendo a coisa certa”.



“Por favor, fale alguma coisa, ainda que não seja o que está pensando”. Era o medo de esquecer sua voz.



E na pressa, de novo, não souberam se despedir e durante toda a viagem ela pensou naquele depoimento escondido:

“E não é que a gente não sabe se despedir... Acho que é uma questão de incapacidade mesmo, de simplesmente não conseguir dizer adeus.
E outra: não quero ter que me despedir... Nunca...

No máximo dizer boa noite, sabendo que você vai estar ali, pertinho, quando acordar...”



Agora ela diz boa noite para uma foto, e até acaricia seu rosto.



Não tem mais aquele quarto, naquele apartamento, no prédio onde todos moram, pra ela poder se jogar na cama sentindo o cheiro dele e lembrar de cada vez em que lá ficaram por dias. E permanecer lá, por dias. Até essa dor passar.



Ainda não veio também a coragem de reler as cartas. Não há mais o que fazer a não ser pensar em tudo (de certo e de errado) e engolir o que queria dizer.



E pedir para que fique bem.

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